#Elavence Perfil - Adaptação, reinvenção e resiliência

A paraense Ana Karoline Silva viu o empreendedorismo chegar cedo e entendeu o que é resiliência para quando os planos não dão certo


DA REDAÇÃO DO ELAV - O espírito empreendedor e a inquietude nasceram cedo na vida de Ana Karoline Silva. Paraense de Altamira, tinha pouco mais de 18 anos quando se mudou para Anápolis em Goiás contra a vontade da família após ser aprovada na universidade. A mudança, grande e assustadora à primeira vista para a menina que até então nunca tinha saído do estado, foi o pontapé inicial que Ana precisava para começar a crescer.



"Fui contra boa parte do meu destino que permanecer em Altamira e possivelmente seguir em alguma carreira no funcionalismo público. Eu já tinha mentalidade de que a cidade estava pequena para o que eu queria, coloquei o pé na porta e fui sozinha para lá, tentar entender como seria viver em uma grande cidade", recorda.


O impacto da chegada em Anápolis foi imenso. Altamira tinha 70 mil habitantes antes da construção da barragem de Belo Monte, época da mudança de Ana, enquanto Anápolis era um município 10 vezes maior. "Pensei várias vezes em desistir. Eu tinha medo da distância da família, de não chegar a tempo caso algo acontecesse, de não ter raízes por lá. Mas o que me segurou mesmo foi quando eu comecei a ver que existiam oportunidades que realmente poderiam transformar a minha vida", relembra.


O negócio online de venda de roupas femininas começou com um "feliz deslize" na gestão do orçamento para pagar a faculdade. Num sábado de passeio com algumas colegas, comprou peças a mais e gastou R$ 100 que ajudavam a compor o valor - já justo - que estava na conta bancária para pagar a mensalidade da faculdade.


"Vi que precisava me virar, que meu pai não iria repor o dinheiro. Olhei para as roupas que eu tinha comprado e enxerguei uma possibilidade de negócio. Comecei a postar no Facebook e Instagram que estava vendendo roupas e em pouco tempo, minhas amigas de Altamira já eram minhas clientes", lembra.


Nasceu aí a Atualize Modas, de onde Ana conseguiu entender na prática a dinâmica dos negócios e conseguia lucrar até 150% nas peças enviadas para a cidade paraense.

"O custo de vida em Altamira normalmente é muito alto pela logística complicada. Minhas amigas viam as roupas que eu comprava em Anápolis, Goiânia e Brasília, encomendavam e eu despachava para lá. Elas tinham acesso então a roupas da moda que queriam por um preço mais acessível, mesmo com toda a margem que eu conseguia ter", diz.


O amor pela moda e a clientela cresceram, assim como a vertente negociadora também. A faculdade de Fisioterapia passou a não fazer mais sentido como curso - já que boa parte do tempo era dedicado a vendas também presenciais paras as colegas. Por outro lado, sobrava vontade de ingressar de vez no ramo da moda.

Negócios, planos e ajustes (necessários) de percurso


Foi durante as férias da faculdade numa viagem a Altamira que Ana decidiu deixar de vez os estudos na área de saúde e voltar para a cidade natal. Foram cinco semanas de recesso, e cinco livros devorados nas áreas de gestão financeira e empreendedorismo, mostrando que não era apenas uma vontade momentânea. Aquilo fazia parte de uma transição sem volta para a jovem empreendedora.


A chegada da barragem a Altamira trouxe indenizações para moradores de algumas regiões, entre elas sua mãe. "Bateu aquele sentimento de voltar para casa e ajudar a gerenciar o dinheiro que iria chegar", conta.


Parte dos recursos foi investido em um novo imóvel na cidade e R$ 10 mil alocados para abrir uma loja de roupas. "Eu me sentia preparada, balisava meu conhecimento pelo que tinha aprendido a partir de muita leitura, mas errei", reconhece. Diferente das vendas online, não houve um grande impacto entre os clientes em potencial, da mesma forma como o parcelamento e o "vender fiado" ajudaram a desestabilizar o negócio.


O caminho foi partir para o mercado de trabalho, e um emprego como recepcionista ajudou a pagar as contas e a não mexer no retorno que tinha com o que havia restado do estoque das roupas. A experiência frustada não foi suficiente para apagar o instinto empreendedor e dividir o tempo entre o emprego fixo e os projetos pessoais fizeram sentido por ainda algum tempo na vida de Ana.


Deu errado? Pivote


Foi nessa busca pelo que seria seu próximo desafio - ainda como funcionária - que Ana encontrou no ramo de alimentação e bebidas sua grande paixão. Levou para a vizinhança do escritório onde trabalhava os geladinhos gourmets que fazia depois do expediente com a ajuda da mãe, apostou em uma identidade visual e criou aí a marca Dinlincinha.


"Comecei a fazer isopor personalizado para deixar em consignação na vizinha. Tinha 2 horas de almoço, comia em 15 minutos e o restante era para visitar os lojistas. Vendia por R$ 12 o isopor fechado com 10 unidades, trabalhava a venda porta a porta no atacado de segunda a sexta e vendia para cerca de 10 lojas. Comecei num mês a ganhar muito mais do que meu emprego como recepcionista", diz.


O passo natural foi pedir demissão. Dos geladinhos, Ana passou para tapiocas. Para levantar o valor necessário para pagar o caução e o aluguel em uma galeria no centro da cidade, vendeu praticamente todas as roupas de grife que tinha trazido de Goiás, alguns móveis, sapatos e 40 livros. "Eu estava com quase 23 anos e os 400 reais a mais me deu mais fôlego para estruturar a operação".


Não foram poucos os percalços no caminho, que incluíram algumas disputas judiciais com uma ex-sócia que havia entrado no negócio havia poucos meses. "Não tenho como dizer que aquilo não me abalou. Perdi 8 quilos, tive um princípio de depressão e sentia que todo o meu esforço não estava valendo a pena", diz.


Impacto entre as famílias ribeirinhas


Uma das maiores referências familiares para Ana em suas diversas reinvenções profissionais veio da mãe, Maria Vanuza. De origem ribeirinha, aos 14 anos saiu da comunidade onde morava e foi para Altamira, onde se casou e passou a trabalhar no comércio. Determinação, força e a grande vontade de aprender, a levaram a desenvolver principalmente habilidades em gestão e planejamento, qualificações que contribuíram para que ela assumisse a gerência de mercados na cidade.


"Vejo minha mãe como um grande exemplo de intraempreendedora. Ela era aquela pessoa que tinha a habilidade em resolver problemas, que tinha o dom da comunicação e que sempre pensava coletivamente. É a mulher com mais garra que conheço no mundo", diz.


Não à toa, Maria Vanuza contribuiu para a reestruturação financeira e social de dezenas de parentes também ribeirinhos que queriam fazer a transição para a cidade, passando a viver no entorno de Altamira e foi fundamental no processo de recuperação de autoconfiança e retomada dos planos da filha.


Levou algum tempo para que Ana pudesse se recompor psicologicamente e financeiramente, e em 2018 nasceu a marca Awaraté, focada na produção de geleias artesanais e cuscuz. Entre as idas e vindas de empregos fixos, conseguiu levantar mais recursos para investir naquilo que hoje considera seu principal projeto de vida: a criação de uma cafeteria com estilo e produtos próprios.


Um pouco antes da pandemia, comprou um contêiner para reformar e montar sua cafeteria personalizada. Os planos não avançaram na velocidade prevista, mas nem por isso o desânimo voltou a bater.


"Foram vários episódios e vários pontos evolutivos em cada etapa da minha vida. Cada ponto dessa trajetória trouxe aprendizado sem igual. E todas as vezes que um tropeço desses acontece é para eu ter mais certeza e que estou no caminho certo", comenta.


Reinvenção, adaptação e resiliência são as três principais palavras que fazem sentido para sua trajetória, em sua avaliação. E assim como ela encontrou na mãe uma figura forte de referência e apoio para avançar nos seus projetos e ajustar o percurso como necessário, acredita que o apoio entre mulheres empreendedoras pode trazer resultados sem igual para os negócios.


Filhas de Farani


Justamente na esteira do conhecimento buscado em empreendedorismo, Ana deu início em abril deste ano a um grupo de apoio a mulheres líderes de negócios.


Já familiarizada com a trajetória de impacto em empreendedorismo de Camila Farani e ciente do poder das conexões, a empreendedora montou um grupo com a intenção de compartilhar conteúdo empreendedor para a região Norte do país, mas rapidamente a iniciativa ganhou a adesão de participantes de todo o Brasil.


Hoje são cerca de 3 mil participantes que se conectam por canais do Telegram, podcast, Instagram e buscam apoio mútuo para crescer, desenvolver e fortalecer seus negócios. Neste sábado (21/11), o grupo vai realizar uma oficina para apoiar o empreendedorismo feminino na região do Xingu.


Batizada de “Oficina de Empreendedorismo em Ação”, a iniciativa será aberta ao público feminino e contará com palestras sobre empreendedorismo, saúde e psicologia e cursos em artes manuais. Para conhecer mais sobre a Filhas de Farani, clique aqui.



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