#ElaVence Perfil - Conexões que transformam

Atualizado: 8 de Dez de 2020

A história de Marciele Delduque, idealizadora da aceleradora Mulheres Que Inspiram e que ajudou a mudar o cenário de empreendedorismo feminino na cidade de Mariana


DA REDAÇÃO DO ELAV - Quando a barragem do Fundão se rompeu em Minas Gerais, em novembro de 2015, não foi apenas o distrito de Bento Rodrigues que foi afetado. A dor das famílias que perderam suas casas, seus parentes e sua história se somou ao impacto devastador que o acidente teve em Mariana, cidade distante 35 quilômetros do rompimento, mas que era o principal pólo econômico da região.


Dependente principalmente da atividade turística e da extração de minérios, com a paralisação da atividade da Samarco - uma das principais empregadoras da região e a responsável pela barragem - o desemprego chegou a quase 30% da população, deixando também a economia do município bastante prejudicada. Empreender foi, para muitos, o caminho natural para o início da retomada.


"O município sofreu um impacto muito grande, quase todo mundo ficou sem norte. Muitas mulheres ainda empreendiam informalmente com a venda de alguns produtos e dependiam economicamente dos maridos ou pais, empregados em sua maioria em mineração. Elas se viram na necessidade de fazer alguma coisa", relembra Marciele Delduque, idealizadora do grupo Mulheres Que Inspiram, uma das iniciativas que deram cara nova e transformadora ao empreendedorismo na região depois do acidente.


Na tentativa e erro


Marciele iniciou quatro negócios em áreas diferentes até ter o primeiro que realmente começou a prosperar. "Fui de máquina de sorvete, à montagem de pizza em casa, passando por loja de produtos de R$ 10 e chegando no meu primeiro salão de beleza. Nenhum foi para frente. Eu tinha pouco mais de 20 anos e olhando para trás vejo que eu pensava muito a curto prazo, não fazia planejamento financeiro de médio prazo e tinha muita dificuldade e garantir um fluxo que realmente conseguisse manter as despesas e me levasse para frente", relembra.


Mas desistir nunca foi opção. Em meados de 2012, depois dos aprendizados dos negócios que não foram adiante, investiu em um novo salão de beleza, estética, manicure e depilação com mais planejamento, estrutura e duas sócias e colocando o cliente no centro da experiência. Os bons resultados do Salão Charme vieram certeiros.


"No ano seguinte, em 2013, eu já estava com uma visão mais madura do negócio e pensamos em montar um salão que oferecesse não só serviços, mas uma verdadeira experiência para a cliente, com móveis diferentes, com detalhes a mais. Fomos crescendo de uma maneira muito despretensiosa, mas chegou um momento que atendíamos inclusive as classes mais altas da cidade até mais de 21h todos os dias. As clientes chegavam a marcar horários com uma semana de antecedência", relembra.


Com o crescimento da clientela em Mariana, Marciele e as sócias perceberam a importância da conexão com muitas mulheres que passavam pelo salão. Mais do que clientes, muitas se tornaram parceiras, ao compartilhar experiências e dicas capazes de mover os negócios adiante.


Das conversas no salão com as clientes e parceiras, nasceu a ideia de criar um café em que algumas mulheres pudessem se conectar formalmente. O encontro uniu 15 mulheres que compartilhavam seus momentos de vida e buscavam ouvir umas às outras. Nascia ali no terraço da própria Marciele o embrião do Mulheres Que Inspiram.


Do primeiro encontro já saiu uma nova data, ali no mês seguinte. O grupo estruturou melhor o que seria a próxima agenda e incluiu uma sessão para que todas pudessem compartilhar seu momento de vida e dos negócios, já que, como ela, a maioria das outras participantes também empreendiam. Foram 30 mulheres nesse segundo café.


"Percebemos que havia um sentido de conexão e de encorajamento. Muitas vezes precisamos de uma mulher nos apoiando e tendo um olhar de empatia para que consigamos ter coragem de desbravar algum projeto", relembra. O movimento foi ganhando corpo - em paralelo ao Salão Charme que continuavam crescendo - e o próximo passo foi buscar mais conteúdo empreendedor para que juntas pudessem crescer.


"Criamos diversas pílulas de conteúdo que passaram por planejamento, precificação, recursos humanos. Abrimos mais tempo para nossos cafés e em 4 meses chegamos a 150 mulheres".


Do caos à retomada


O rompimento da barragem de Bento Rodrigues, em 2015, colocou um grande ponto de interrogação naquilo que seria o futuro dos negócios e dos planos daquelas mais de 200 mulheres que faziam parte do grupo Mulheres Que Inspiram, que depois da tragédia foi rebatizado para Marianas Mulheres Que Inspiram para reforçar ainda mais a identidade local.


Diante da nova realidade econômica, o grupo de buscou outras alternativas como parceiros que pudessem apoiar necessidades pontuais. Novas linhas de crédito mais baratas para as empreendedoras, reforço de capacitação e formalização foram algumas das vertentes trabalhadas e rapidamente o grupo ultrapassou 350 mulheres.


"Em um cenário em que a maior parte das pessoas da cidade estava perdida, elas se sentiram acolhidas e caminharam em direção ao fortalecimento econômico, buscando novas oportunidades".


Do terraço da casa de Marciele, os encontros chegaram ao Centro de Convenções reunindo mais de 800 mulheres de Mariana, Ouro Preto e região no primeiro fórum que recebeu palestras, mentorias e convidados externos. O grupo ganhou mais estrutura e, em outubro de 2020, passou a atuar como uma aceleradora de negócios, com sede própria e integrantes que juntas movimentam cerca de R$ 3 milhões por mês, segundo levantamento do Sebrae.

Acolhimento, apoio e incentivo


Filha mais velha em uma família de três irmãos, Marciele hoje aos 39 anos oferece para empreendedoras e mulheres que passam pelo grupo um acolhimento que não recebeu na juventude.


Aos 15 anos engravidou do primeiro namorado, não recebeu apoio da família e ainda precisou se mudar do bairro onde morava por não ser considerada uma "boa influência". "Eu me tornei a referência negativa da comunidade onde eu morava, as amigas se afastaram e o único ponto de apoio que encontrei foi na família do meu namorado na época", relembra.


Com o nascimento da filha veio a pausa nos estudos, interrompidos no início do 8o ano do Ensino Fundamental e retomados apenas 6 anos mais tarde. O tempo fora da escola, no entanto, em que Marciele pode dedicar à sua filha e também a observar o entorno da comunidade onde vivia serviu para aguçar o senso de impacto social, e atuar em projetos para reduzir evasão escolar e a informalidade do entorno.


Questionada sobre o futuro das Marianas, Marciele é categórica: o objetivo é fortalecer a rede, suas participantes e ir além dos limites da cidade. "Queremos dar continuidade à entrega de oportunidades para essas mulheres e dar um protagonismo e uma projeção que vão além da região. Empreendedorismo é uma oportunidade que essas mulheres tiveram e têm de se reinventar e a sororidade é nosso propósito de vida", diz.


O grupo Marianas Mulheres Que Inspiram é um dos primeiros projetos apoiados pelo ElaVence. Você pode saber mais sobre o projeto clicando aqui.


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