#Elavence Perfil – Duas crises e um negócio: desistir não é opção

O amor pela educação uniu duas professoras para realizar um sonho em comum: investir em uma escola infantil. Mas nem no cenário mais pessimista Vanessa e Cris poderiam imaginar o que seria estar à frente de um negócio durante duas grandes crises: o rompimento da barragem de Mariana (MG) e pandemia do Covid-19

DA REDAÇÃO ELAV – Praticamente todos os empreendedores sabem que estar à frente de um negócio não é nada fácil. Serão dezenas de dúvidas, medo do incerto, noites fazendo cálculos para tentar garantir o planejamento das finanças. E por mais que se planeje, mantenha reservas e faça previsões, dificilmente alguém está preparado para lidar com duas grandes crises logo nos cinco primeiros anos de operação.


Foi exatamente isso o que aconteceu com as professoras e empreendedoras mineiras Vanessa Silva e Maria Cristina da Silva, fundadoras da escola Doce Infância de Mariana (MG). Quarenta dias após a inauguração, em 2015, as empreendedoras precisaram lidar com a tragédia do rompimento da barragem que impactou todo o município, a renda dos pais e os planos do negócio.


Quase cinco anos depois do episódio, o novo golpe. A pandemia de Coronavírus forçou o isolamento social e o fechamento da escola - que dessa vez acumula mais de 300 dias sem operar.

Força, resiliência e determinação fazem parte da trajetória das duas que, apesar de todas as dificuldades, precisaram se reinventar e conseguiram garantir que seu negócio cheio de propósito seguisse em frente.


Vontade de fazer diferente

Nascida na cidade vizinha a Mariana, Ouro Preto (MG), Vanessa, 41 anos, viu na criação de sua escola a chance de transformar realidades de crianças, pais e famílias.

Durante a infância estudou em uma escola em que a maioria dos pais dos alunos eram ricos e brancos. “Eu era gordinha, cabelo afro e preta. Os professores e alunos não me acolhiam. Além disso, assuntos como racismo e bullying não eram discutidos. Por isso surgiu a vontade de ser professora, para fazer diferente e garantir que outras crianças não passassem pelo que eu passei”, conta.


Um propósito comum uniu a jovem professora à também educadora Maria Cristina, a Cris, 42 anos, quase sete anos atrás. Os filhos das duas eram colegas de sala e o laço de amizade foi se estreitando cada vez mais.


"Em nossos encontros, sempre conversávamos sobre o nosso olhar a respeito da Educação Infantil e as possibilidades que víamos de poder inovar nessa área, baseada em nossas experiências de anos de trabalho, como educadoras, nas escolas onde havíamos trabalhado e, do nosso sonho em comum de termos nossa escola”, relembra Vanessa.


A ideia de abrir a escola ficou borbulhando nos pensamentos das duas educadoras e amigas. A intenção era empreender no ramo da educação com uma metodologia inovadora, mais assertiva e mais humana, baseada no construtivismo. Assim, poderiam estimular os alunos a se tornarem atores potenciais no processo de ensino-aprendizagem.


Em 2014, então, foi o momento de dar o passo seguinte e colocar em prática o que estava somente nas conversas. Ao fim do ano, já mais capitalizadas, decidiram sair dos empregos da época para dar o pontapé inicial à escola. “Iniciamos o levantamento do espaço físico, mobília, licenças, alvará, adaptação do imóvel, e toda documentação necessária. Enquanto cuidávamos da parte burocrática, começamos a pensar no nome para a nossa querida escola e planejar a proposta pedagógica voltada para o que acreditamos”, relembra Cris.


O cronograma previa estruturar a operação em 2015 e iniciar as aulas no ano letivo de 2016, até que o rompimento da barragem de Bento Rodrigues afetou economicamente todo o município e os planos.


A primeira tragédia

"Estávamos na escola recebendo os últimos móveis para a montagem das salas de aula, quando mais ou menos, às 16h30, recebemos a triste notícia do rompimento da Barragem do Fundão. Nesse instante, nossa prioridade foi buscar notícias de pessoas e dos amigos que poderiam estar envolvidos ou nas proximidades do trajeto da lama. Depois do choque emocional e psicológico, veio o pânico de pensar que o nosso projeto pudesse se perder junto com essa tragédia, pois todo aquele sonho, todas as expectativas e economias estavam depositados na abertura da nossa escola”, diz Vanessa, cujo marido era funcionário da Samarco, empresa controladora da barragem.


Por se tratar de um empreendimento novo, contavam, a princípio, com um número significativo de alunos na inauguração da escola. Grande parte dos primeiros alunos eram filhos de amigos que conheciam de perto o empenho das duas na educação infantil. No entanto, devido à crise econômica e emocional que se instalou na cidade, iniciaram o ano letivo de 2016 com apenas 17 alunos, de uma capacidade prevista de 50.

Tiveram muito medo, mas em momento algum pensaram em desistir de inaugurar a Escola Infantil Doce Infância, pois quando planejavam a escola, desde a criação do nome, pensavam em um espaço de acolhimento, atenção, cuidado e carinho e os pequenos clientes não podiam esperar.

"Inclusive, dentro das nossas próprias famílias, tivemos desafios devido ao grande número de desempregados, refizemos nossos planejamentos, mas nada disso nos fez desistir de levar nosso sonho adiante, o sonho de empreender”, diz Cris.

A retomada foi gradual, recompensadora. O espaço, minuciosamente planejado para o bem estar das crianças, transmissão de conhecimento por meio do lúdico e ao fim do primeiro ano de operação, já estavam com 26 alunos.

"Fizemos publicidade na rádio, distribuímos panfletos e cartão de visita, convidávamos famílias que poderiam ser futuros clientes da escola, fizemos também um banco de dados, onde ligamos para as famílias, convidado para conhecer a escola Doce Infância. Também procuramos fazer eventos em espaços abertos para a comunidade, em ponto estratégico da cidade, para que pudéssemos ser vistos", diz Vanessa.

As educadoras também passaram a captar matrículas com impulsionamento de imagens no Facebook, propagandas na rádio local, distribuição de panfletos com a proposta da escola e alguns projetos especiais que deram mais visibilidade à escola. Integrantes do Corpo de Bombeiros, por exemplo, estiveram na Doce Infância para explicar sobre o trabalho e o funcionamento dos equipamentos e até levaram os alunos para um passeio, chamando a atenção do município.

A conexão entre escola e comunidade também esteve presente em outras iniciativas, como um projeto sobre educação no trânsito que foi levado para as ruas da cidade, o movimento global Dia de Aprender Brincando, que convida educadores, famílias e cuidadores para abrir as portas de casas, escolas e outros espaços educativos para explorar as potencialidades de aprender e brincar ao ar livre, entre outros.

O segundo impacto

O ano de 2020 tinha tudo para ser de excelentes lembranças para Vanessa e Cris. A primeira turminha que entrou ainda bebê nos primeiros anos da escola estava para se formar. Seria a primeira formatura de alunos que passaram os cinco anos do ensino infantil na Doce Infância.

Até que a pandemia de Coronavírus colocou um ponto de interrogação gigante no que seria o ano da escola. E a formatura precisou acontecer no formato inovador e muito emocionante - tente não chorar ao ver este vídeo - de Drive Thru.

“Ninguém estava preparado para essa pandemia, óbvio. Não sabíamos o que iríamos enfrentar nem por quanto tempo. Então, pensamos na necessidade de mantermos uma comunicação clara, transparente e ágil com os pais ou responsáveis por nossos alunos”, relata Vanessa.

Procuraram estruturar os planos e encontraram ajuda e ideias no grupo Marianas Mulheres Que Inspiram, projeto para mulheres empreendedoras que criou uma verdadeira rede de apoio no município, do qual fazem parte.

Para estreitar o relacionamento com as famílias, enviaram vídeos gravados pelas professoras, enviaram dicas de como os pais e mães dos alunos poderiam lidar com as emoções, pensamentos e comportamentos no contexto familiar, diante do período tão difícil para todos.

Com o passar do tempo, escolheram o caminho do diálogo com as famílias, ainda cheias de dúvidas sobre o funcionamento da escola, sobre mensalidade, sobre o retorno das aulas presenciais e sobre o dolorido cancelamento de matrículas.

O diálogo nesse momento foi muito necessário e a dedicação total aos clientes - as famílias e os alunos. As diretoras fizeram atendimentos individuais com cada família, numa ação primordial para que os pais entendessem a importância de manter o compromisso e a parceria com a escola, além de manter os filhos matriculados, mesmo com uma grade curricular online desafiadora para Educação Infantil.

"Tivemos também, casos de família que necessitavam de uma profissional para cuidar das crianças enquanto estivessem em casa, neste momento disponibilizamos os serviços de cuidado, em comum acordo com as monitoras", afirma Vanessa. A escola também enviava kits mensais de materiais escolares para que os alunos pudessem fazer as atividades em casa. Seguiam também um cronograma de atividades lúdicas que envolvessem toda a família, com o objetivo de levar, além do desenvolvimento cognitivo, leveza e alegria àqueles dias tão atípicos.

Percebendo que não havia uma previsão de retorno às aulas presenciais e diante de relatos de alguns pais de que as crianças estavam sentindo falta da escola, dos professores e colegas, decidiram, junto à equipe, inserir aulas online ao vivo para que todos pudessem se ver.

Depois da adaptação das crianças, familiares e professores deram início à programação com contação de histórias, músicas, dicas de alimentação saudável, entre outras atividades. E, aos poucos, perante os desafios e dentro das possibilidades de um quadro de pandemia, foram realizando as adaptações no processo de ensino-aprendizagem e obtendo um retorno muito gratificante das famílias.

"Percebendo a ansiedade das famílias diante a saudade das crianças em relação à escola, professores e colegas, a Equipe Doce Infância disponibilizou uma sequência de visitas, na semana das crianças, seguindo todo o protocolo de segurança. Enfeitamos a van da escola, confeccionamos lembrancinhas, colocamos músicas e bastante alegria para levarmos o nosso carinho e matar a um pouquinho da saudade dos nossos pequeninos, Fomos recebidas com sorrisos, gritos de felicidade e até choros de muita emoção", diz Cris.