#ElaVence Perfil - Liderança e representatividade

Atualizado: 2 de Dez de 2020

Conheça Geovana Quadros e o grupo Mulheres Inspiradoras que busca aumentar a representatividade feminina em posições de liderança


DA REDAÇÃO DO ELAV - Mulher, nortista, jovem e em posição de liderança. Geovana Quadros tinha 20 e poucos anos quando chegou a São Paulo recém-saída de Belém (PA) para fazer sua carreira deslanchar no ramo de comércio exterior. Nos escritórios e mesas de negociação via bons argumentos, estratégias comerciais mas praticamente ninguém como ela.



"Todo mundo que sai de cidades menores vem para ganhar. E quando chega num ambiente competitivo como São Paulo, enfrenta ainda mais barreiras para se enquadrar, especialmente se são colocadas em estereótipos como aqueles em que me encaixavam", diz.


Corria o ano de 2010 quando, aos 26 anos, já comandava a estruturação do departamento internacional de uma grande indústria de cosméticos. Em pouco tempo de empresa já atendia mais de 50 países em mais de 20 distribuidores. E quanto mais avançava, menos representatividade feminina encontrava.


"Existia uma dicotomia grande. Quanto mais eu crescia na minha carreira, menos mulheres eu via na mesa de negociação. Eram muitos empresários homens e raríssimas mulheres. Eu entrava no jogo, aceitava as piadas que me faziam porque eu queria fazer parte. Se o topo era ali, eu aceitava", relembra.


O tempo passou e ela começou a perceber traços de que determinados comportamento não eram aceitáveis, entre elas o famoso mainsplaining que vivenciava em praticamente toda reunião - quando um homem toma a palavra para explicar algo que uma mulher já tinha apresentado. O tradicional "o que ela quis dizer com isso foi…." que além de Geovana sempre foi comum aos ouvidos de milhares de mulheres no mercado corporativo.


Tais fatores começaram a incomodar a executiva, assim como o baixo número de líderes mulheres que encontrava pelo caminho. Já afeita a se comunicar com grandes audiências em palestras e apresentações no Brasil e fora do país, passou então a estudar mais sobre o assunto para começar a dar visibilidade às questões de gênero que seriam parte fundamental da trajetória a caminho da equidade.


Em 2015, o livro Dicas de Mulheres Inspiradoras foi o divisor de águas para que Geovana começasse um trabalho mais ativo na área. A obra, que foi co-organizada pela executiva, foi uma das primeiras publicações que compilaram histórias e vivências de grandes líderes do mercado, como Luiza Helena Trajano, Sonia Hess, Camila Farani, entre outras.


Na esteira do livro, nasceu a Confraria Mulheres Inspiradoras, um grupo organizado pela própria Geovana inicialmente com 20 mulheres como atividade paralela ao trabalho em comércio exterior. "Eu viajava todos os meses para o exterior e quando voltava ao país nos reuníamos. A intenção era ter um espaço e um momento para que pudéssemos nos fortalecer, compartilhar nossas habilidades e ampliar nosso networking", diz.


O grupo ganhou corpo e hoje reúne mais de 400 nomes de protagonistas em diversos setores, desde altas executivas de empresas como Microsoft (Tânia Cosentino) e Adidas, passando por jornalistas e artistas de grande projeção nacional, como Wanessa Camargo e Luiza Brunet.


Caminho (árduo) para equidade


Há três anos, Geovana decidiu pedir demissão e investir a fundo no tema de diversidade com o recorte em gênero. Estruturou então uma consultoria para criar programas e treinamentos para empresas interessadas em reduzir as desigualdades e aumentar o número de líderes mulheres.


"Desenvolvemos projetos especiais para várias marcas que querem engajar suas executivas, workshops para desenvolvimento de lideranças, além de conteúdo e palestras", diz.


O movimento começa a acontecer, mas ainda é insuficiente para que se alcance resultados em curto prazo.


"Ao observar os números e o cenário brasileiro, vejo que desde 2011 o Brasil está praticamente estagnado em criar caminhos ativos para reduzir o gap da desigualdade de gênero no mercado de trabalho. Estimativas do Fórum Econômico Mundial mostram que se continuarmos assim, só conseguiremos atingir patamares semelhantes entre homens e mulheres só daqui a mais de 200 anos. Nem a minha filha verá esse avanço. O que está sendo feito ainda não é suficiente para refletir mudanças no topo das empresas", diz.


Geovana também cobra políticas ativas voltadas para mulheres, de maneira a trazer apoios estruturais que ajudem a assegurar condições de liderança. "Hoje somos mais da metade da população, mas não somos representadas devidamente em setor nenhum como política, economia. Não há políticas ativas voltadas para tratar essa questão", afirma.


Entre algumas alternativas aponta, por exemplo, condições e termos iguais para licença maternidade e paternidade. "Ainda hoje o mercado não está devidamente preparado para receber essa mulher que é mãe. Você é normalmente questionada se vai ter esse equilíbrio entre vida pessoal e profissional", afirma.


Segundo Geovana, em alguns países em que a equidade de gênero já está mais avançada, como na Islândia, a licença paternidade não é opcional, ela acontece nos mesmos termos da licença maternidade. "O que vemos é que normalmente a mulher tem a carreira momentaneamente estagnada quando se torna mãe, enquanto os homens seguem crescendo. Com os mesmos termos, em que assim que se torna pai o homem também tem os meses de afastamento estabelecidos por lei, são proporcionadas oportunidades semelhantes", diz.


Impacto trilionário


O olhar sobre a equidade de gênero vai além da sensibilização para a causa em si. Quando a questão é analisada pelo prisma econômico também traz números e oportunidades impactantes.


Um deles é que empresas com lideranças mais diversas rendem até 30% mais, segundo levantamento da empresa de análise e pesquisa DDI e da Ernst & Young (EY). "E quando falamos sobre atingir a equidade de gênero de maneira ampla, falamos em injetar US$ 28 trilhões de dólares na economia global, segundo dados da McKinsey.


Grupos como o Mulheres Inspiradoras têm a missão dar visibilidade para as mulheres que já cresceram profisisonalmente e ocupam posições de liderança para inspirar outras que estão em trajetória ascendente em suas carreiras. "Se eu, jovem, vejo mulheres em posições de liderança e ocupando lugares de destaque, eu tenho mais um estímulo para acreditar que eu consigo chegar lá", diz.


Para conhecer mais sobre o Mulheres Inspiradoras, clique aqui.



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