#Elavence Perfil - Paixão pelos livros e por desenvolver pessoas

Moradora de um sítio interior do Mato Grosso e apaixonada pelos livros, Ariane Mamedes contrariou o destino da maioria das garotas de sua região para buscar seu desenvolvimento pessoal e profissional

DA REDAÇÃO DO ELAV - A vida de Ariane Gervasio Mamedes era simples, morava com seus pais e irmãos em um sítio na cidade de Juina, no Mato Grosso. Após o sétimo ano do Ensino Fundamental, a rotina durante a semana ficou diferente, pois não haviam turmas na escola rural. Sendo assim, o dia para ela começava antes do galo cantar, acordava em torno das 2h da madrugada para às 3h estar no ponto de ônibus.

Depois de percorrer praticamente 60 quilômetros todos os dias, esperava o ônibus novamente. Quando chegava em casa, junto com seus irmãos, ajudava nos afazeres domésticos, enquanto os pais trabalhavam ordenhando vacas.

Após um dia cheio de atividades, Ariane só tinha disponível o horário noturno para fazer as leituras que tanto amava. Mas nem por todos os obstáculos, Ariane deixou o gosto pelos livros, inspirado no tio Ricardo, que morava em outra cidade e era advogado.

Era uma época em que celulares não existiam, a comunicação com o tio era realizada com troca de cartas. Além das cartas, Ricardo escrevia belos poemas e sempre presenteava a sobrinha enviando caixas recheadas de livros. No sítio não havia rede elétrica e a lamparina era sua companheira na leitura.

Por ter o hábito de ler muito, a imaginação de Ariane era bem aflorada, inclusive relembra que se sentia muito diferente das meninas da vizinhança com a mesma faixa etária. “As meninas do sítio me achavam muito diferente... eu não gostava das mesmas coisas que elas gostavam. Que criança de sítio lia muito? Somente se tivesse uma referência e eu era muito diferente dos meus irmãos, inclusive. A ambição delas era se casar, elas se casavam muito novas, com 15, 17 anos e minha maior ambição era sair de lá para me desenvolver”, relembra.

Assim como grande parte dos brasileiros, estudou em escola pública, quando finalizou o ensino médio, prestou vestibular para Universidade Estadual do Mato Grosso e foi aprovada para o curso de contabilidade, mesmo curso de formação do pai. Não era o que gostaria de estudar, mas aceitou para agradar o pai e porque enxergava o ingresso na universidade como uma chance que poderia gerar outras oportunidades na sua vida, que ia além da perspectiva de um casamento.

Ariane relata que foi morar na cidade e cursou os quatro anos da graduação em contabilidade, porém não entregou o trabalho de conclusão do curso, sendo assim, não concluiu formalmente a graduação. “Talvez eu tenha um pouco de arrependimento porque era mais uma formação, mas não foi uma coisa que eu fiz porque me agradava, fiz porque era a única oportunidade que eu tinha no momento”, diz.

Com dezenove anos, no início da graduação, Ariane conseguiu emprego em uma cooperativa de crédito para o agronegócio, cursar contabilidade na época a ajudou com o primeiro emprego. Filha e neta de pequenos produtores rurais a fez sentir que o propósito da empresa correspondia com o seu.

Depois de alguns anos, teve a oportunidade de ingressar em uma outra universidade e dessa vez estudar algo que realmente tivesse conexão com o que acreditava ser seu propósito. Se formou no curso de tecnologia em agronegócios, pela Instituição Federal do Mato Grosso e se orgulha em dizer que foi a segunda formação pública que conseguiu passar por mérito, mesmo anos depois de concluir o Ensino Médio.

Inquieta, Ariane nunca gostou de estar na mesma função por muito tempo, quando entrou na empresa, o cargo era de estagiária e em apenas seis meses já estava contratada. “Fui convidada a compor a sede administrativa atuando como analista de crédito, mas o marco para mim, foi quando assumi a assessoria de Processos e Qualidade, porque eu podia contribuir com melhorias não só no trabalho, me relacionava com pessoas, facilitando a vida delas”, relata.

Lembra que no início da carreira não entendia como os talões de cheque funcionavam e que a cooperativa teve uma parcela de atuação em sua evolução profissional, e que se sente uma intraempreendedora, pois o próprio crescimento e o da empresa também dependeram da busca pessoal do seu desenvolvimento.

Saindo do conforto

Quando completou treze anos de cooperativa, o desejo de mudança surgiu novamente. Assuntos como liderança, gestão de pessoas e criatividade são de seu interesse e confessa que demorou muito tempo para começar a estudar e se aprofundar nos temas. O primeiro estalo que fez Ariane despertar, foi quando assistiu uma palestra e ouviu a seguinte frase: se você estiver confortável, está errado! Ariane falou para si mesma que precisava mudar, e em 2018 investiu em estudo.

Outro acontecimento significativo que a motivou, foi o recebimento de um convite para participar de uma migração sistêmica no Nordeste, permaneceu vinte dias em Fortaleza, no Ceará. “Foi muito rico pois não tinha tido experiência em trabalhar com outras equipes fora do Mato Grosso e Rondônia. Foi muito desafiador! Tive que testar todos meus conhecimentos e habilidades tanto para formar quanto para liderar. Incrível! Então tive meu segundo estalo: eu quero desenvolver pessoas”, diz.

Aos 33 anos, Ariane acredita poder contribuir com a prosperidade das pessoas e da região onde mora, inclusive atualmente, após participação no evento proporcionado pela cooperativa em que trabalha, está realizando uma consultoria, sem remuneração, mas quer testar suas habilidades, entregar valor e tem certeza de que pode ir além.

Conhecia a investidora Camila Farani pela TV, lia os artigos publicados no LinkedIn. Durante seu MBA, teve a oportunidade de conhecê-la pessoalmente em uma palestra na PUC. “Ela me inspira porque é uma mulher inovadora, o posicionamento dela diante do mercado é muito marcante, nos inspira a ter força, a nunca desistir, a acreditar que nós podemos, independente da área que trabalhamos, podemos ser protagonistas dentro do lugar que estamos inseridos, seja como funcionários, ou seja como próprios empreendedores, é muito importante, porém, o intraempreendedorismo é muito importante, eu posso ser empreendedora dentro da empresa que eu trabalho”, diz.

Assim como foi inspirada, acredita que pode inspirar também. “Sou forte e corajosa. Minha fé e meu propósito me movem. Por mais mulheres que ajudam mulheres, no melhor das pessoas, por isso acredito e valorizo o Ela Vence”, declara.

“Quando olho para trás, lembro daquela menina que não sabia como usar um cheque e que hoje apoia, constrói e gerencia o planejamento dos rumos da cooperativa, poxa... O coração se alegra sim! São vidas que tocamos. Muita responsabilidade com pessoas em prol de um propósito muito bonito”, diz.

O ano de 2020 não foi nada fácil, Ariane precisou lidar com a perda do irmão mais velho durante a pandemia, além disso o pai e o irmão mais novo precisaram ser entubados, devido a complicações causadas pela covid-19, mas agora estão bem. Olhando para frente, pretende continuar desenvolvendo pessoas e aprimorando suas habilidades de gestão, à frente da expansão mercadológica da cooperativa em Rondônia.


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