Empreendendo em casa: Quais os maiores desafios e como superá-los

Muitas mulheres para conseguir empreender precisam transformar o lar em um negócio. É um desafio diário que enfrentam para conseguir conciliar as tarefas de trabalho, casa e lazer.


DA REDAÇÃO ELAV - Há uma diferença entre o home office e transformar a sua casa em um negócio. Isso acontece com muitas mulheres que decidem começar a empreender, mas não possuem um lugar para trabalhar e acabam fazendo do lar este local. Para trazer um olhar de quem viveu essa experiência, convidamos Marcele Porto, especialista em empreendedorismo feminino e que em sua jornada já vivenciou a experiência de transformar a casa em negócio quando administrava um hostel temático de cerveja.


Atualmente em seu mestrado, a especialista Marcele, estuda exatamente sobre esse conflito da mulher que transforma sua casa em negócio, especificamente sobre a área do turismo, ou seja, aborda o tema de empreendedoras que alugam as suas casas para hospedar pessoas e quais são os conflitos que enfrentam no dia a dia. Para o #Elavence aprofundamos o assunto tratando de outros tipos de negócios que podem trazer essa mudança no lar de muitas empreendedoras.


Para início de conversa a especialista em empreendedorismo feminino, resgata a história do porquê as mulheres começam a abrir o próprio negócio: “Hoje está gritando aos nossos olhos por conta da pandemia. Algumas questões específicas que motivaram que isso acontecesse é na década de 70 com a lei do divórcio, a mulher passa a ser chefe da sua família, então a gente tem muitas grades familiares que tem a mulher como chefe daquela casa e extrapola a questão só da administração e gerência de uma economia doméstica na hora de fazer as compras, cuidar dos filhos etc.


Quais são os motivos que levam a mulher a empreender e quais conflitos ela enfrenta?

Em todas as pesquisas e reportagens, muitas mulheres , por conta própria, deixaram seus empregos por não terem com quem deixar os filhos e por isso não tem como se dedicar ao trabalho. Então tem o contraponto histórico que o lugar dessa mulher é dentro de uma casa, dentro do lar, como se o espaço privado é o da mulher e o espaço público é do homem. Desde a pré-história o homem saía para a caçar e a mulher ficava com a cria e gerenciava o cuidado e alimentação, isso vem na construção da humanidade. Passa por um trabalho visto como algo inferior, pois quem trabalhava era o escravo e a mulher. Quem cuida da casa de forma pejorativa é a mulher, principalmente a mulher negra. Depois vem de um momento em que a sociedade se torna capitalista e o capitalismo obriga que essas mulheres partam para o mercado de trabalho. É aí onde a mulher da classe média e alta começam a entender como é essa duplicidade de função. É uma parte da construção do que vivemos hoje, mas a questão do quanto um passado histórico entra em conflito com a sociedade que pede o que quer que a gente seja.


A sociedade pede que a mulher seja independente, protagonista, que a mulher faça e aconteça, porém a mulher não tem uma rede de apoio que suporte essa direção que estão tomando, é uma discrepância de discurso muito grande.


São dois pontos: ou a mulher fará isso pois precisa pôr comida na mesa e tem a realidade da mulher que já estava conseguindo conquistar alguns pontos sociais através do intraempreendedorismo ou outros tipos de atividades e a mulher que sai do emprego e volta para casa para poder cuidar do filho. A mulher que se torna mãe e a empresa não a aceita mais e acaba indo buscar um outro tipo de negócio para suprir essa necessidade financeira. Fazer tudo isso dentro de casa é desafiador. A casa é o ambiente do lar, da família, onde seu olhar precisa estar integralmente para o cuidado. É um ambiente que precisa ser acolhedor. E quando você leva o negócio para dentro de casa, precisa gerenciar tempo, separar um canto para o trabalho e isso impacta uma sobrecarga de trabalho muito grande, faz com que alguns índices aumentem, como por exemplo, a carga emocional.


Como identificar que minha casa também é meu negócio?

Começa a virar um negócio quando a mulher começa a se perceber como dona do negócio e separa as contas. Quando ela tem uma mentalidade de gestão em cima daquilo que ela está fazendo e de separar essas contas, como por exemplo água e luz e começa a perceber essas dissociações, a enxergar como negócio para crescer. Quando a cozinha está pequena é necessário ampliar, já que não é possível dividir com o restante da casa. Geralmente começa o negócio pensando que aquilo é só uma ajuda, um bico ou complemento para ajudar nas contas, então demora a se enxergar como empreendedora, ou prestadora de serviço. Então quando tem essa virada de chave ela começa a dividir a economia familiar e atividade que ela escolheu desenvolver.


Que tipo de negócios geralmente fazem com que a casa se torne um negócio?


Um negócio é a doceria, inclusive dou mentoria para uma empreendedora que começou fazendo bolo em casa, hoje o marido faz as entregas e precisaram construir um local na casa para a produção dos bolos e doces.


Outro exemplo são hamburguerias, uma outra pessoa que faz mentoria comigo, criou a hamburgueria em casa e faz as entregas por aplicativo, Nunca recebeu ninguém em, já começou com delivery, precisou mudar a própria casa para que a cozinha suportasse a produção.


A hospitalidade, existem aplicativos que você pode disponibilizar a sua casa para hóspedes, você vai melhorando a decoração da sua casa para receber melhor as pessoas.


A costureira que também transforma a casa em negócio, ela começa com um trabalho aqui outro ali e de repente está com o canto da casa com vários tecidos. Sempre tem a costureira do bairro e a produção de máscaras também movimentou muitas costureiras que estavam escondidas e que foram essenciais para confecções de máscaras.


Quais são os desafios e conflitos que essas mulheres enfrentam e como solucionar?


1 - Se perceber enquanto empreendedora

Quando ela percebe que é empreendedora e o valor do dinheiro que ela insere dentro da casa dela e que está fazendo diferença para economia da casa é o primeiro ponto. É uma forma de pedir respeito pelo trabalho que está sendo feito em casa, pois ela precisa internalizar a autoestima muito forte feminina, precisa entender que ela está fazendo uma coisa que é rentável.


2 - Separar as contas pessoas e da empresa

Começa se estruturar e delimitar o que é da casa e o que é do negócio, principalmente na parte financeira, independente de estudo, eu já cometi esse erro muitas vezes. Não pode esquecer que precisa reinvestir na empresa.


3 - Criar métodos e técnicas

Estruturar e fazer a gestão do negócio. Como vai mexer as peças do tabuleiro, se vai precisar de mão de obra ou não e também se é necessário fazer parcerias.


4 - Se entender como empreendedora

Fazer o exercício de uma visão de futuro, correr os riscos, criar estratégias de crescimento para o negócio que começou muitas vezes intuitivamente com habilidades intrínsecas e quando percebe que tem um potencial de se tornar um negócio, siga os passos para que realmente isso vire um negócio estruturado.

É considerado um negócio quando você começa a ter potencial de gerar emprego, é o primeiro alerta de que isso está se transformando em um negócio.


Marcele Porto é uma profissional com formação interdisciplinar. Administradora com MBA em Controladoria, Auditoria e Finanças na FGV, atualmente cursa o mestrado acadêmico em turismo na Universidade Federal Fluminense onde pesquisa sobre Empreendedorismo Feminino.

Coautora do livro Estratégias de Vencedores e autora do livro 'A Alma Feminina no Negócio'. Participou do TedxPedradoSal contando sua trajetória empreendedora e abordando as conquistas femininas do último século. Foi finalista do prêmio grandes mulheres PEGN/ Facebook 2017 e recebeu o prêmio Dandara em 2019. Ano em que também foi reconhecida como a melhor mentora do mundo pela YBI (Youth Business International), por seu trabalho voluntário de apoio a empreendimentos gerenciados por mulheres da ONG Aliança Empreendedora no programa Guru de Negócios. Em 2020 se tornou embaixadora do #ElaFazHistória, programa oficial do Facebook para mulheres que empreendem.



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